
Quando o neoconcretismo emergiu no Rio de Janeiro no final dos anos 1950, reuniu artistas que se tornariam referências internacionais, presentes hoje nas maiores coleções e museus do mundo. Junto ao concretismo paulista, que desde a Bienal de São Paulo de 1951 havia colocado a abstração geométrica no centro do debate artístico brasileiro, esses movimentos construíram uma das tradições visuais mais sólidas e originais do país: a investigação da forma, da cor e do espaço como linguagem autônoma. Décadas depois, essa tradição continua viva. Há uma geração de artistas brasileiros que trabalha com geometria, cor e superfície sem repetir fórmulas, aprofundando questões que o concretismo e o neoconcretismo abriram e deixaram em aberto. As obras reunidas nesta seleção pertencem a esse campo da abstração brasileira.
Almandrade é o eixo histórico do conjunto. Nascido em São Felipe, na Bahia, em 1953, desenvolveu sua pesquisa em Salvador à margem do eixo Rio-São Paulo, em diálogo com o concretismo, a poesia visual e o poema-processo. Arquiteto e poeta, fez da economia formal uma posição estética: duas ou três cores, um plano, um traço. Décio Pignatari, ao escrever sobre sua obra em 1995, chamou isso de “nudismo abstrato”, definindo seus objetos como “compostos segundo uma grafia de cartilha, porém enganosamente simplista, posto que metafísica”. As quatro gravuras produzidas entre 2013 e 2014, em edição numerada, reunidas aqui, colocam a mesma questão com que Almandrade opera há cinquenta anos: onde a forma termina e o espaço começa. O crítico Diego Matos observou que muitos de seus trabalhos emulam uma vista de topo, como plantas arquitetônicas: cada trabalho é, ao mesmo tempo, espaço representado e poema escrito. A forma mínima de Almandrade é uma abertura, uma questão posta ao interlocutor para que este a complete com seu próprio olhar ativo.




Essa mesma abertura percorre o restante do conjunto. Em Cássia Aresta, gravurista de Florianópolis com formação enraizada na tradição gráfica brasileira, duas formas sólidas se organizam na metade inferior de uma folha branca: uma grande e preta, que ocupa e ancora; uma pequena e vermelha, pousada sobre a primeira como um peso em equilíbrio instável. O branco acima age como pressão. A gravura opera com uma das questões centrais do neoconcreto: a forma como força, o espaço como campo de tensão, o peso visual como dado tão concreto quanto o peso físico.
Em Livia Frigo, retângulos de azul em registros distintos de saturação se sobrepõem sobre linho sem se alinhar. Há uma fresta entre eles, e o linho aparece como dado ativo, participante da composição. A forma e o fundo, mais uma vez, têm suas fronteiras borradas em uma experiência em que um não existe sem o outro.
Já em Claudia Couto, uma linha vertical percorre um campo bipartido entre azul escuro e bege, mudando de cor ao cruzar o horizonte que divide as duas zonas. O elemento que parecia separar passa a costurar, e ao costurar evidencia a diferença. Operações aparentemente simples, que alteram o equilíbrio da obra, são herança direta do concretismo.
Fabiana Pretti, cuja pesquisa partiu da azulejaria e migrou para tecidos de diferentes malhas e tramas, carrega na Série Recortes uma linhagem formal que passa pelo construtivismo: as formas carmim recortadas em linho de grande formato são rigorosas, mas a borda laranja neon que as contorna age como junta construtiva e como choque cromático. Paulo Pasta, com quem Pretti estudou, é um dos pintores brasileiros contemporâneos que mais sistematicamente investigaram o que acontece na fronteira entre uma cor e outra, e essa herança é visível na tensão que Pretti constrói em suas obras.


Will Sampaio torna o problema da camada literal. A sobreposição de tule, em rosa claro e em bordô, cria quadrados concêntricos que a malha do tecido ao mesmo tempo constrói e dissolve. A cor existe como densidade de camadas; cada uma filtra a anterior. O suporte, em suas obras, é o próprio mecanismo produtor da experiência cromática.



Há algo estruturalmente próximo na aquarela de Viviane Coppola: retângulos de papel translúcido sobrepostos em verde, azul, laranja e roxo geram zonas de interseção onde a cor resultante pertence ao cruzamento, ao que ocorre entre as camadas. Aqui, mais uma vez, a superfície é onde a cor se produz.
Lucas Quintas fecha o conjunto levando essa lógica para a tridimensionalidade. Em Ilusão 52, fios de polipropileno em laranja e azul-escuro são tensionados sobre estrutura de madeira muiracatiara. A faixa diagonal que emerge dessa disposição existe como fenômeno óptico. Nas palavras do próprio artista, as obras se produzem na retina do espectador. A construção é quase matemática, ditada por resultados conceituais e métricos, mas o que a estrutura entrega é sempre mais do que o cálculo: o olho completa o que os materiais propõem.
As obras reunidas aqui demonstram que a abstração geométrica segue oferecendo um vocabulário amplo para a produção contemporânea. Ao final do percurso, permanece a sensação de que a geometria opera como um método de descoberta. Cada obra convida o olhar a experienciar relações entre equilíbrio, tensão, luz, matéria e vazio, fazendo da percepção parte essencial da experiência estética. É nesse encontro entre precisão construtiva e abertura interpretativa que a abstração brasileira continua encontrando sua força e sua atualidade.
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