
Viver entre arte e design é, antes de tudo, conviver com narrativas silenciosas. Cada peça que escolhemos — uma escultura mínima, uma luminária curva, um quadro que nos acompanha há anos — cria uma espécie de mapa afetivo da casa. Não fala de grandiosidade, mas de presença. Do gesto de trazer para perto aquilo que nos desloca, conforta ou provoca. Ao escolher o que permanece no espaço, escolhemos também o que permanece em nós.
Para Tatiana Loureiro, arte é aquilo que ocupa um lugar onde as palavras não chegam. “Pra mim, arte é respiro. É aquilo que eu olho e me faz sentir algo que as palavras não alcançam. Ela me tira do mental e me arremessa gentilmente para sentir”, conta.
Esse processo, segundo Tatiana, começa sempre pela escuta visual: primeiro ela olha; depois, se pergunta para onde aquela obra a leva. Muitas das peças que escolhe trazem figuras femininas, um tema que a acompanha e a fortalece. “Me remetem ao meu poder como mulher, e isso me faz me sentir bem.”



Na hora de compor o ambiente, Tatiana prefere misturar técnicas para criar movimento. Esculturas, quadros, acrílicos, tudo encontra lugar na casa, desde que em diálogo. “Eu harmonizo tudo”, brinca. Para ela, a convivência entre as obras é tão importante quanto cada peça em si: “Gosto da harmonia entre a arte e aquilo que já habita a minha casa, como se cada peça fosse continuação da outra.” O resultado é um ambiente vivo, que convida quem chega a observar devagar. “Quem vem aqui fica horas olhando cada detalhe.”

Para Clóvis Ikeda, colecionador de arte, a seleção de uma obra começa sempre por afinidade profunda. “A escolha de uma obra de arte para mim segue a princípio uma linha de identidade com o artista, com o estilo (…) e com a fase em questão”, explica. Ele diz que raramente escolhe algo “simplesmente estético ou para harmonizar com o ambiente”, porque acredita que uma obra reflete a personalidade de quem a acolhe. Sua coleção, que reúne “abstratos e geométricos contemporâneos, mas sem ter uma linha muito clara de estilos”, revela essa liberdade de olhar que não precisa se enquadrar ou restringir para fazer sentido.


Nos últimos anos, porém, esse processo ganhou uma camada nova. Clóvis passou a buscar obras que se conectam entre si, criando relações internas. “Procuro obras de arte que de certa forma dialogam com as demais obras da minha coleção, de tal forma a poder criar uma estória ou enredo”, conta. O resultado é um conjunto que não depende da unidade formal mas da conversa delicada e sinuosa que se estabelece entre artistas, técnicas e tempos diferentes.
No dia a dia, essas peças são presença indispensável. “Obras de arte são muito importantes para o meu cotidiano e para a harmonização da casa”, diz, ressaltando como esculturas, cerâmicas e pinturas “criam uma nova vida para as paredes e para todo o ambiente”. Em uma casa cheia — esposa e três filhas — ele tenta equilibrar gostos sem comprometer a autonomia das escolhas. E, entre amigos colecionadores e iniciantes, Clóvis faz questão de incentivar: “Procuro estimular as pessoas a iniciarem uma coleção (…) a princípio com artistas mais jovens e depois ir criando maturidade.” Para ele, colecionar é um caminho, um aprendizado contínuo — e também uma forma de conviver com a arte e com o que ela move dentro de nós.



Quando deixamos que arte e design façam parte da rotina, a casa deixa de ser apenas cenário e se transforma em uma espécie de interlocutora. A cadeira, a tela, o vaso, a luz — tudo se reorganiza como um conjunto de presenças que nos acompanham diariamente. Não se trata apenas de combinar ou preencher, mas de construir um território que faz sentido, que acolhe, que espelha.
Integrar peças autorais ao dia a dia é também assumir que morar é um processo contínuo: chegadas, ajustes, encontros. E que, nessa soma, aquilo que escolhemos manter por perto se torna uma extensão da nossa própria subjetividade.
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