
Vista da instalação da artista Carolina Cordeiro, O tempo é, 2023, no 39º Panorama da Arte Brasileira, Depois que tudo foi dito. Foto Ding Musa
O Museu de Arte Moderna de São Paulo inaugurou, no último dia 12, a 39ª edição do Panorama da Arte Brasileira, principal evento da instituição e segunda exposição bienal mais relevante do país. Após permanecer fechado por quase dois anos em razão das obras de requalificação da Marquise do Ibirapuera, sob a qual está instalado, o museu reabriu ao público com “Depois que tudo foi dito”, mostra com curadoria da baiana Diane Lima.

Esta edição do Panorama reúne trabalhos de 33 artistas de 11 estados brasileiros. Seu título é inspirado em uma questão filosófica formulada por Denise Ferreira da Silva, uma das principais teóricas do feminismo negro na contemporaneidade: “O que pode existir além de tudo o que já foi dito, visto, feito e imaginado?” A mostra propõe um exercício radical de reflexão sobre os caminhos da arte brasileira após décadas marcadas por viradas epistemológicas. Para tanto, afasta-se dos modos convencionais de definir e descrever a produção de artistas dissidentes.
Em diálogo com a pensadora, o projeto curatorial pretende ler a arte como confronto por meio de obras que, nas palavras de Lima, questionam “como as práticas artísticas são capazes de manter o senso de urgência e a legitimidade das reivindicações políticas, dialogando com as mudanças que esses mesmos discursos têm gerado nos modos de fazer e pensar a arte”. A exposição busca, portanto, complexificar a própria definição de arte brasileira, fugindo dos modos já conhecidos de delimitá-la.
Um dos destaques da edição é a instalação inédita Manifestação Revolução Mística, de Rodrigo Cass, que faleceu em 17 de setembro, aos 43 anos. Na obra, o artista mistura vídeo, pintura, escultura e palavra, tendo como referência as sete cores do arco-íris. Nas videoperformances, realiza uma série de montagens e desmontagens, explorando as noções de repetição, exaustão, espera e resistência. É o que ocorre, por exemplo, com a palavra “Manifesto”, que aparece em uma das telas, inscrita em um cartaz que pega fogo, queima, se refaz e volta a pegar fogo.

A dimensão política do cotidiano e a reflexão sobre o trabalho são evidenciadas na obra de Allan Weber. O artista, que já trabalhou como motoboy, apresenta Capitães do Asfalto, instalação formada por partes de bicicletas suspensas do teto. Em alusão a Capitães da Areia, romance de Jorge Amado, Weber chama a atenção para a bicicleta, meio de transporte cada vez mais utilizado por entregadores como instrumento de trabalho e autonomia.
No outro trabalho exposto, Sem título (2025), da série Traficando arte, Weber agrupa câmeras fotográficas adquiridas em feiras de antiguidades, de modo que assumam a forma de armas de fogo, sobretudo de fuzis. Ao aproximar esses objetos midiáticos dos símbolos da violência urbana, o artista propõe uma discussão sobre memória, vigilância e poder.

Outro destaque é a instalação Mercado de dádivas, de Caroline Ricca Lee, por meio da qual a artista pesquisa a condição dos imigrantes chineses e japoneses na cidade de São Paulo durante a década de 1970. Na obra encomendada para a exposição, a artista explora a relação dessas comunidades com o comércio, entendido tanto como um processo de construção de estabilidade no novo território quanto como um meio de formação de suas identidades na sociedade brasileira. Tomando como referência as lojas de importação e exportação da capital paulista, a artista questiona os processos de apagamento e homogeneização das identidades asiáticas.
Nesta edição, Jota Mombaça ocupa a Sala de Vidro do MAM com a obra Um dia vou voltar, composta por tecidos que somam 222 metros e foram submersos em diferentes corpos d’água da região de Natal, no Rio Grande do Norte. Marcados pelos leitos desses corpos d’água, os tecidos são apresentados como testemunhas da fluidez da água, da memória colonial da região e das possibilidades de sobrevivência.

Quem assina o projeto expográfico é o escritório Vão, dos arquitetos Anna Juni, Enk te Winkel e Gustavo Delonero. Partindo da fachada envidraçada, uma das marcas registradas do museu, a equipe decidiu retirar a película escura que limitava a visibilidade do espaço expositivo, transformando a relação entre a instituição e o parque.
Agora, mesmo quem passa em frente ao MAM consegue enxergar o que está em cartaz na Sala Milú Villela. Ao fundo, os painéis já existentes foram reorganizados em zigue-zague, em referência à parede desenhada por Lina Bo Bardi, em uma composição que alterna chapas de alumínio reflexivas e superfícies minerais. Nas demais salas, o vidro ganha cor, criando outras relações entre o espaço expositivo e a paisagem do parque.
Durante o período em que o MAM esteve fechado para reforma, sua administração funcionou temporariamente no Museu de Arte Contemporânea da USP, e a programação do museu foi viabilizada graças a parcerias com instituições como o Sesc São Paulo, o MAB-FAAP e o Centro Cultural Fiesp. Com a conclusão das obras da Marquise, em janeiro, a instituição aproveitou para promover uma requalificação completa de seus ambientes internos, assinada pelo escritório Metrópole_arq, de Anna Helena Villela e Silvio Oksman. O projeto buscou preservar a arquitetura tombada e, ao mesmo tempo, modernizar os espaços.
Essa nova fase é marcada pela abertura da exposição e pelo lançamento da publicação que a acompanha. Com 364 páginas, o catálogo reúne textos de Cauê Alves, curador-chefe do MAM, e de Elizabeth Machado, presidente do museu, além de um texto inédito da curadora Diane Lima e de verbetes sobre os artistas assinados por Giovanna Querido, gerente de projetos da curadoria do 39º Panorama. O livro inclui ainda uma entrevista inédita entre a escritora e professora Christina Sharpe e Diane Lima, um texto inédito encomendado à filósofa Denise Ferreira da Silva e um ensaio do historiador e crítico literário David Lloyd.
39º Panorama da Arte Brasileira: Depois que Tudo Foi Dito
Museu de Arte Moderna de São Paulo – MAM-SP
Parque Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, s/nº
12 de setembro de 2026 a 24 de janeiro de 2027
Entrada gratuita
Gostou desta matéria? Leia também:
Exposição no MAB FAAP reúne artistas que estudaram ou lecionaram na FAAP para discutir o percurso formativo no campo das artes