

Se 2024 e boa parte de 2025 foram anos de ajuste, o fim de 2025 trouxe algo novo ao mercado da arte: sinais claros de recuperação, recordes pontuais e, sobretudo, confiança renovada. Pensar 2026, portanto, não é projetar um mercado em retração, mas compreender como o sistema se reorganiza após um ciclo de correção — agora em terreno mais firme.
Os dados recentes mostram que o mercado voltou a registrar vendas expressivas em segmentos-chave, especialmente no topo e em artistas consolidados, ao mesmo tempo em que o mercado intermediário manteve dinamismo. Grandes coleções foram absorvidas com sucesso, obras icônicas atingiram novos patamares de preço e o apetite por arte de qualidade voltou a se manifestar de forma consistente. Não se trata de uma euforia generalizada, mas de um otimismo seletivo, sustentado por critérios mais claros.
Esse é talvez o principal legado do ajuste: o crescimento voltou, mas mudou de forma. Em vez de volumes inflados artificialmente por liquidez abundante, o mercado encerra 2025 mais disciplinado, mais segmentado e, paradoxalmente, mais saudável. Galerias reportam maior previsibilidade, colecionadores demonstram maior convicção nas decisões e instituições voltam a planejar aquisições com horizonte de médio prazo.
Outro sinal positivo está na resiliência do ecossistema. Mesmo diante de juros elevados, tensões geopolíticas e incertezas macroeconômicas, o mercado da arte mostrou capacidade de adaptação. O interesse por feiras se manteve elevado, o tráfego qualificado voltou a crescer e a circulação internacional de obras — ainda que mais seletiva — permaneceu ativa. O fim de 2025 deixa claro que a arte segue sendo percebida como reserva de valor simbólico e patrimonial em tempos de incerteza.
Para 2026, isso abre espaço para um cenário mais construtivo. O foco deixa de ser simplesmente “voltar aos níveis pré-ajuste” e passa a ser consolidar um novo patamar. Um mercado onde o topo continua relevante — e capaz de produzir recordes —, mas que não dita sozinho o ritmo do sistema. Onde o crescimento se distribui entre artistas com trajetórias consistentes, galerias profissionalizadas e colecionadores engajados.
A tecnologia também entra em 2026 com um papel mais maduro. Após o entusiasmo inicial, plataformas digitais, dados e inteligência artificial deixam de ser promessas abstratas e passam a atuar como infraestrutura invisível do mercado: apoiando precificação, ampliando acesso, reduzindo assimetrias e fortalecendo a confiança. Não substituem a relação humana — mas a tornam mais eficiente.
Geograficamente, o otimismo se reflete em um mercado menos concentrado e mais plural. Enquanto os grandes centros seguem fortes, mercados regionais e cenas locais ganham relevância relativa. O crescimento não ocorre apenas onde há capital, mas onde há narrativa, institucionalidade e capacidade de articulação. Para países como o Brasil, esse movimento reforça oportunidades reais de inserção — desde que acompanhadas de estratégia e consistência.
O colecionador de 2026 emerge como figura central desse novo ciclo. Mais informado, menos impulsivo, mas novamente disposto a agir. Ele volta a comprar, a apoiar artistas, a emprestar obras, a construir coleções com intenção. Em um mercado que encerra 2025 em tom positivo, a confiança retorna — e com ela, a disposição para assumir risco de forma consciente.
Nada disso elimina os desafios. A liquidez segue limitada, a transparência ainda é desigual e o mercado continua sensível a choques externos. Mas o ponto é outro: o sistema entra em 2026 mais preparado para lidar com essas tensões. Com menos ilusão e mais experiência.
Se os últimos anos ensinaram prudência, o fim de 2025 devolveu entusiasmo. Pensar o futuro do mercado da arte, agora, é aceitar que crescimento e maturidade não são opostos. Eles podem — e talvez devam — caminhar juntos.
2026 não promete euforia.
Mas promete algo talvez mais raro: confiança sustentada.